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Suicídio – A importância de uma luta diária



O suicídio continua sendo uma das principais causas de morte em todo o mundo, de acordo com as últimas estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicadas em 17 de junho de 2021, no relatório “Suicide worldwide in 2019”.


Segundo a OMS, ocorrem cerca de 800 mil suicídios por ano no mundo. E no Brasil há o registro de mais de 12 mil suicídios/ano, colocando o país em 8º lugar em números absolutos. Todos os anos, mais pessoas morrem como resultado de suicídio do que HIV, malária ou câncer de mama - ou guerras e homicídios. Sabe-se que no país, o suicídio é a segunda maior causa de morte entre os jovens de 15-29 anos.


De acordo com o CVV (Centro de Valorização a Vida), especialistas identificam transtornos mentais na maior parte das pessoas que tentam ou cometem suicídio. Estima-se que 96% das pessoas que cometeram atos contra sua própria vida sofriam de algum transtorno. Esse número nos mostra a importância de um tratamento psicológico adequado para a população, porque muitos desses transtornos podem ser acompanhados e tratados, prevenindo assim essas mortes. Os transtornos mais comuns são depressão, bipolaridade e o abuso de substâncias tóxicas.


Entretanto, não se pode afirmar que as pessoas que cometem suicídio em sua totalidade apresentam esses transtornos. Muitas vezes, o suicídio pode acontecer de maneira impulsiva diante de algumas situações muito impactantes e inesperadas da vida, como final de relacionamentos, perda de pessoas queridas, abusos ou mesmo crises financeiras, situações que impactam a vida de uma pessoa de maneira profunda. O suicídio também é comum em pessoas que sofrem discriminação, como refugiados, imigrantes, gays, lésbicas, transgêneros e intersexuais.

"Não podemos - e não devemos - ignorar o suicídio", afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde. “Cada um deles é uma tragédia. Nossa atenção à prevenção do suicídio é ainda mais importante agora, depois de muitos meses convivendo com a pandemia de COVID-19, com muitos dos fatores de risco para suicídio - perda de emprego, estresse financeiro e isolamento social - ainda muito presentes. A nova orientação que a OMS lança hoje fornece um caminho claro para intensificar os esforços de prevenção do suicídio."


Para entendermos melhor a respeito do tema, conversamos com Patrícia Witzke, Psicóloga Clínica, especializada em Psicoterapia Psicodinâmica dos Transtornos da Personalidade Borderline e Psicologia Hospitalar e da Saúde. Questionada sobre o que leva uma pessoa a tirar a própria vida, Patrícia explica: “O suicídio está relacionado a um sofrimento intenso vivenciado pela pessoa e transtornos de saúde mental. Antes do suicídio efetivamente acontecer a pessoa pode realizar diversas tentativas ou até mesmo comunicar seus pensamentos a alguém, e é muito importante estar atento a esses sinais para oferecer o suporte necessário. Muitas vezes a sensação de que a pessoa não tem alternativas para acabar com seu sofrimento ou resolver seus problemas faz com que pense que tirar a própria vida é a única saída, sem saber que existe sim tratamento e pode receber o cuidado adequado”.



Segundo o jornal Folha de São Paulo, de acordo com a OMS, as taxas variam entre países, regiões e entre homens e mulheres. Mais homens morrem devido ao suicídio do que mulheres (12,6 por cada 100 mil homens em comparação com 5,4 por cada 100 mil mulheres). As taxas de suicídio entre homens são geralmente mais altas em países de alta renda (16,5 por 100 mil). Para mulheres, as taxas de suicídio mais altas são encontradas em países de baixa-média renda (7,1 por 100 mil).

As taxas de suicídio nas regiões da OMS na África (11,2 por 100 mil), na Europa (10,5 por 100 mil) e no Sudeste Asiático (10,2 por 100 mil) eram maiores do que a média global (9 por 100 mil) em 2019. A mais baixa taxa de suicídio está na região do Mediterrâneo Oriental (6,4 por 100 mil).


O mês de setembro foi escolhido porque é no dia 10 de setembro que se comemora o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. O assunto, que ainda é um tabu para muitas pessoas, exige reflexão e ainda enfrenta grandes dificuldades na identificação de sinais, oferta e busca por ajuda, justamente pelos preconceitos e falta de informação que existe acerca desse tema.

No Brasil, a campanha é divulgada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pelo Centro de Valorização da Vida (CVV). As instituições, além dos profissionais envolvidos, também contam com a ajuda de empresas e pessoas comuns, pois é através de todos que chega à informação para quem precisa. No site da campanha (setembroamarelo.com) e em muitos locais da internet, além de informação, são disponibilizados diversos materiais gratuitos que tratam desde dados sobre o suicídio até as formas de como abordar esse tema e identificar pessoas que precisam de ajuda.


Para que fosse possível compreender com mais profundidade o objetivo da campanha, pedimos que Patrícia falasse sobre o Setembro Amarelo: “A campanha tem extrema importância para falarmos e pensarmos sobre o suicídio enquanto sociedade. O suicídio é um problema grave no Brasil, bem como o sofrimento mental, que ainda hoje são tabus. Por ser um assunto que não é conversado abertamente, aumenta o risco de termos pessoas que precisam de atenção, pois possuem pensamento suicida. É importante até mesmo para habilitar familiares, amigos e colegas em como é possível ajudar a pessoa que dá indícios, comunica uma ação suicida ou até mesmo como reagir se é presenciada uma tentativa de suicídio. É a forma de podermos identificar precocemente as pessoas com risco aumentado de tirar a própria vida e ajudar as pessoas a desenvolver habilidades para lidar com o sofrimento emocional ao longo da vida”.

“Historicamente o suicídio é considerado pelas religiões como um pecado e culturalmente temos a tendência de evitar falar sobre a morte. Tem muitas pessoas que acreditam que falar sobre o suicídio pode acabar incentivando pessoas que têm estes pensamentos e essa é uma crença falsa, pois o efeito é justamente o contrário. A falta de informação e esclarecimento sobre os riscos de comportamentos autodestrutivos, por parte de familiares, amigos e de profissionais nas escolas e da área da saúde faz com que sejam tomadas decisões que não vão de encontro com aquilo que a pessoa com pensamento suicida precisa. Ampliar as possibilidades daqueles que convivem pode evitar o ato suicida. Falarmos sobre o suicídio ajuda também as próprias pessoas que estão desamparadas, vivenciando a sensação de tirar a própria vida, a não se sentirem sozinhas e banidas do que é aceito socialmente, além de incentivar a falarem e pensarem sobre isso e entenderem que precisam de tratamento sem chegar a este fim fatídico. Detectar e tratar adequadamente a depressão reduz as taxas de suicídio”, afirma Patrícia.


Embora alguns países tenham colocado a prevenção do suicídio no topo de suas agendas, muitos deles ainda não são comprometidos com a causa. Segundo dados da OMS, atualmente, apenas 38 países são conhecidos por terem uma estratégia nacional de prevenção do suicídio. Para apoiar os países em seus esforços, a OMS lançou uma orientação abrangente para a implementação de sua abordagem “LIVE LIFE” para a prevenção do suicídio. As quatro estratégias desta abordagem são:

- Limitar o acesso aos métodos de suicídio, como pesticidas e armas de fogo altamente perigosos;

- Educar a mídia sobre a cobertura responsável do suicídio;

- Promover habilidades socioemocionais para a vida em adolescentes;

- Identificação precoce, avaliação, gestão e acompanhamento de qualquer pessoa afetada por pensamentos e comportamentos suicidas.


Patrícia também aproveitou e deixou algumas dicas de como lidar com esses pensamentos:

- Converse sobre os seus sentimentos com uma pessoa de confiança. A maior parte das pessoas se sente melhor depois de conversar com alguém que se preocupa com elas;

- Busque ajuda especializada. Um psicólogo, médico ou profissional da saúde é um bom começo;

- Lembre-se que se você receber cuidados adequados você poderá melhorar;

- Continue a realizar as atividades que você gostava quando estava bem;

- Preserve as suas relações pessoais. Continue em contato com sua família e amigos;

- Procure comer e dormir regularmente, e não esqueça dos exercícios físicos;

- Evite ou limite o consumo de álcool e abstenha-se de drogas ilícitas, porque podem piorar a depressão;

- Se tiver pensamentos suicidas, contate alguém imediatamente e peça ajuda.

Falar sobre o que a gente sente e pedir ajuda nunca deve ser sinônimo de vergonha ou medo de julgamentos. Você sabia que no Brasil existe uma instituição que oferece apoio emocional e atua na prevenção do suicídio? O Centro de Valorização da Vida (CVV), é uma associação sem fins lucrativos, com pessoas qualificadas para conversar e reverter a situação do suicídio eminente.

Caso precise conversar, basta ligar para 188 ou acessar o chat no site da CVV. O telefone e o chat funcionam 24 horas por dia, em todos os dias da semana. O primeiro passo para mudar esse fim trágico é entender que não estamos bem e que se não tivermos um tratamento especializado, não sairemos dessa situação.

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